terça-feira, 3 de novembro de 2009

Dos reencontros

Ainda o restaurante da José Bonifácio, algumas semanas atrás. Estava eu absorto em ponderações da mais alta relevância - seria lícito acoplar em um mesmo prato feijão e massa, como fazia a senhora defronte a mim? - quando testemunhei esta mui breve cena. Ele à mesa, acompanhado de uma moça (namorada, talvez? precipitado afirmar) que, pelo que pude distinguir, privilegiava as saladas; ela procurando lugar para acomodar-se com os 5 ou 12 colegas de algum desses elegantes cursos de roupas brancas. Notaram-se, hesitaram, voltaram a se notar. Ele e ela, discretos, destacaram-se de seus comensais, fixando o encontro quase acidental em torno do grão-de-bico.

- Oi.
- Então, tu...
- Aham! E tu...
- Pois é!
- Coincidência!
- Como tá a...
- Todos bem. E...
- Também.
- Maravilha.
- Fiquei sabendo que...
- Sim. Acontece.
- Que pena.
- Melhor assim.
- Certo.
- Mas tu e...
- Estamos!
- Puxa! Quanto...
- Dois anos e...
- Parabéns!
- Obrigado. Olha, preciso...
- Eu também, estão...
- Claro.
- A gente se...
- Até.
- Até.

Voltaram a seus lugares. Os colegas dela a aguardavam em uma mesa ao fundo. A companheira dele, com a atenção voltada uma mensagem no celular, parecia nem ter notado sua ausência. Durante algum tempo fiquei pensando sobre esse diálogo de falas cortadas e palavras medidas - não nego a tentação de preencher as lacunas, tornando-o minimamente inteligível. Hipótese inicial: cada interlocutor interrompia e antecipava o outro no intuito de que não se falasse mais do que a razão orienta, não se ouvisse mais do que a estabilidade pode suportar. Por isso a conversa soava incompleta. Passei, depois, a considerar outra possibilidade: nenhuma transcrição literal jamais será suficiente para compreender a comunicação silenciosa entre duas pessoas que sabem ter se amado. Todo o diálogo, portanto, revelava-se absolutamente compreensível, com a condição de que não se prestasse muita atenção às palavas.

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O que, evidentemente, não elimina minha inquietação. Por Tutatis, de onde inventaram essa história de massa com feijão?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Porto Alegre, Brasil, feriado nacional, oito da madrugada. Vó liga pro meu celular.

- Alô?

- Guto! Vê se tu avisa avisa aquele ordinário do teu pai que capeletti não é só na sopa.

- Mas hein?

- Capeletti não é só na sopa, ora bolas! - e desliga, visivelmente irritada.

Certo que os federais pegaram ela também.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

10 coisas a fazer antes do fim do ano:

1. Terminar O zen e a arte da manutenção de motocicletas
2. Arrumar meu quarto de uma vez por todas
3. Mais cinema, definitivamente
4. Sem contar os filmes acumulando espaço no HD
5. Trabalhos atrasados do mestrado
6. Trabalhos atrasados da especialização
7. Monografia quem tô enganando? isso não fica pronto antes de fevereiro.
8. Não perder nenhum dos 17 livros da biblioteca
9. Aprender a elaborar listas com 10 itens. Eu sempre canso perto do final.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O caso do jovem que pensava nas palavras

Roberto compreende que dizer 'o corpo' ou 'o universo' seja a mesma coisa porque, tecnicamente, as palavras corpo e universo designam a mesma coisa. Embora essa idéia de contiguidade entre corpo e universo me agrade, há algo de incompatível. Mesmo que admitamos momentaneamente que palavras designam coisas (e essa premissa de nomeação já seria questionável, uma vez que parte da idéia de que palavras e coisas residem em planos separados), deveríamos considerar que uma palavra pode se referir mais de uma coisa - o que qualquer dicionário vagabundo não encontra dificuldades em atestar. As coisas, então, definiriam-se por palavras, mas essas palavras já estão repartidas pelas outras coisas que representam. Também as coisas encontram-se fragmentadas pelas outras palavras que deveriam dar-lhes identidade. Há, entre as palavras e as coisas, um desencontro perpétuo; à medida que uma palavra avança em direção a uma coisa, essa requer logo uma palavra outra, e assim até o horizonte. Duas palavras não poderiam dizer da mesma coisa porque, em cada palavra, ela constituiria-se instantaneamente em coisa diferente.

Não rejeito a hipótese de que a linguagem tenha conseguido, eventualmente, produzir palavras e coisas cuja ligação íntima não permitiria nenhum equívoco, nenhum deslize, palavra e coisas refletindo-se indissociavelmente. Nenhuma surpresa que as tenha abandonado, também, já que provavelmente não nos serviriam para nada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Antes de prosseguir, vocês deveriam passar , ler isto primeiro, depois todo o resto, e só então retornar.

domingo, 11 de outubro de 2009

Batidas na porta do quarto. A luz mirrada que entra pelas irreparáveis frestas da persiana denuncia que as horas da manhã são poucas, muito poucas. Um olho se abre devagar, com cuidado para não acordar o outro. Mais batidas.

- Gustavo?

Reservo algum tempo para me situar no universo antes de decidir se respondo ou não ao chamado da minha mãe, do lado avesso da porta. Se não estou enganado, é quinta-feira. O despertador ainda não se manifestou, o que confirma ser muito, muito cedo. Um dos cobertores que deveriam me guarnecer atirou-se da cama no meio na noite - às vezes, meu cobertores têm sonhos muito agitados, reflito, e percebo que voltam a bater à porta.

- Acho que ele não está. - reporta mamãe, denunciando que havia mais alguém com ela. Não ouço resposta. Algo errado. Alcanço um relógio em busca de parâmetros confiáveis. Quinta-feira, confere. Menos de sete da manhã, confere. Todo o resto não fecha. Não há qualquer motivo para que eu estivesse em qualquer outro lugar que não o meu colchão, tampouco para visitas inoportunas a essa hora. Muito menos para minha mãe mentir sobre minha improvável ausência a um interlocutor misterioso. Se fosse uma emergência, me acordariam com mais vigor; qualquer coisa menos urgente poderia esperar até as 10. Um incêndio esperaria até as 8, pelo menos. E, além do mais, que mais me procuraria?

Então, compreendo toda a situação.

São os federais.

De alguma forma descobriram minhas mp3 ilegais e vieram me buscar. Droga! Tenho de pensar rápido. Eles não devem ter caído no blefe da velha, é provável que já estejam se preparando para arrombar a porta do quarto, me enfiar dentro de uma viatura e confiscar meu insuspeito computador. As evidências! Preciso destruir as evidências.

Não tenho dúvidas: em um instante arranco os cabos do gabinete e o arremesso do terceiro andar em direção à rua, destruindo qualquer vestígio que pudesse me incriminar e um pouco do capô de um Palio mal estacionado. "Jamais me pegarão com vida", penso, e, com um sorriso triunfante, destranco a porta para enfrentar o braço da lei.

Aí, em vez de me deparar com quarenta e doze agentes armados preparando a emboscada, vejo minha mãe e mais uns parentes de longe tomando café com cuca na o sofá da sala, assistindo o Alexandre Garcia no Bom Dia Brasil.

É tudo o que tenho a relatar, senhores. Não foi alucinação, não foi surto de ira, e não, não tô usando drogas. Eu entendi errado, só isso. Então, tio Alvo, da próxima vez que estiveres viajando de madrugada e resolveres "passar de surpresa para dar um abraço nos sobrinhos", me avisa antes. Evitaremos novos contratempos. E desculpa pelo carro.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Música da semana - 9



Tempo para leitura virou artigo de luxo, e esses senhores de maquiagem têm me feito companhia. As letras são fenomenais - essa, por exemplo, é de uma riqueza ímpar; a versão oferecida no vídeo a reduz, presumivelmente em razão da adaptação para o DVD. Eu, que sou um pouco ortodoxo no que compete à canção, me rendi ao surpreendente talento dos caras. E, de toda forma, ninguém aguenta mais essas bandas de rapazes com cabelo picotado e calças decididamente muito justas.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Gustavo Mano, após assistir uns 20 minutos da novela Viver a vida, constatou que todos os diálogos carregam o aroma de um agradável chá da tarde entre senhoras muito amáveis que no fundo odeiam-se umas às outras. Saudades de Raimundo Flamel.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Boemia, aqui me tens de regresso

Enquanto abastecia meu cachimbo, desastradamente cutuquei com o cotovelo minha sólida estante, que em um instante descobri não tão sólida assim. Dispensei alguns momentos recolhendo livros espalhados, meia dúzia de CDs, duas ou três memórias que não conseguia lembrar onde havia guardado e algumas quinquilharias que talvez a posteridade saiba valorizar; entretido, o tempo esqueceu de mim.

Ocorre que estive, portanto, um pouco distante dos periódicos, de modo que continuava torcendo pelo carismático Bahuan e seus compátridas daquela incrível terra ficcional criada especialmente para o televisor à qual deram o curioso nome de "Índia". Nada disso é importante mais. Na teledramaturgia atual, se estou bem informado, o enredo gira em torno de outro país fantasioso chamado "classe média". Não me parece tão convincente, então ainda estou decidindo se acompanharei.

Escutei também sobre o episódio do garoto obrigado a pintar a escola como punição por uma pichação. Meu porteiro sustenta que esse evento influenciou decisivamente os acontecimentos de Honduras e só não percebe quem possui um espírito pouco esclarecido. Gostaria de ter uma opinião semelhantemente razoável sobre o assunto (gostaria de ter também um tigre de estimação e três meses de férias por ano, mas a vida é assim). Aos interessados, sugiro que tomem o depoimento do cavalheiro André Costa que, num dia aleatório de sua adolescência, concluiu que a letra de Sweet Child O' Mine seria uma decoração apropriada para a parede lateral da sala 301 do Colégio Santa Rosa de Lima. Teríamos provavelmente escapado impunes se, na hora em que a supervisora pedagógica adentrou o recinto, o obstinado cidadão não estivesse empenhado em assinalar as entradas dos solos enquanto maldizia a versão cover da Sheryl Crow. É tudo verdade.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Carta 09

Caro amigo,

Honremos a preguiça, a desorganização e os maus hábitos alimentares; o restante fica sob culpa dos demoníacos compromissos do PPG, que ofereço para que possas também usar de álibi. Sabes, amigo, o quanto de corpo consome cada linha que escrevo, o quanto me fatiga produzir dois parágrafos magros. A academia prefere ignorar o tempo necessário para regeneração. Meu computador não resistiu. Nos últimos tempos não conseguia ficar ligado por mais de meia hora. O dispositivo virtual de comunicação pessoal instantânea há muito deixou de funcionar, o que justifica apenas em parte o sumiço.

Vejo as novas fotos e dois pensamentos me acometem. Primeiro, que talvez seja hora de começar a juntar dinheiro e visitar as terras que estão além da Itapeva (tive um sonho estranho esses dias, do qual lembro pouco, mas de alguma forma marcávamos de nos encontrar no Aeroporto Charles de Gaulle; ignoro o sentido). Segundo: as goleiras são nitidamente muito pequenas. Percebo tratar-se claro artifício para imprimir às crianças o estilo do infalível chute de bico. Te manjo total.

Tenho descoberto leituras interessantes: O poder psiquiátrico, do Foucault, duas ou três novidades sobre grupos, o ensaio como forma; ainda assim, sigo com a sensação de que as coisas se acumulam, e que precisaria de algumas semanas para colocar os pensamentos em ordem. Síndrome do Coelho Branco.

Jonas, o Errante, é um dos artilheiros do Sarneyzão 2009. O mundo está em processo de demência irreversível.

Um grande abraço,